SI A LA PAZ

 

A GUERRA DO IRAQUE E A ONU

 

Helio Jaguaribe

 

As Nações Unidas, longe de perderem relevância, se apresentam, mais do que nunca, como o único centro de legitimidade internacional. Quem perdeu legitimidade foi a superpotência, sob o desastrado governo Bush  A decisão do presidente Bush de atacar o Iraque sem autorização das Nações Unidas e, na prática, independentemente da conduta que viesse a ter Saddam Hussein, requer a mais ampla tomada de consciência, por parte do resto do mundo, de seu significado e de suas conseqüências.

Uma consideração preliminar me parece se impor. Ela se refere ao fato de que esse tipo de evento só tende a ocorrer quando os agentes que o desencadeiam apresentam, entre outras, duas principais características: 1) profunda ignorância do que realmente está em jogo e 2) não menos profunda impregnação por uma simplista ideologia fundamentalista.  Em nossa época, o exemplo histórico mais expressivo dessas características nos foi dado duas vezes por Hitler.

Primeiro, ao assumir o risco de desencadear a segunda guerra mundial, o que acarretaria, inevitavelmente, a intervenção americana - algo de que Hitler se dava conta.  Aquilo de que ele não se dava conta é que a capacidade bélica, tecnológica e econômica dos EUA superava incomparavelmente a das forças do Eixo.

A segunda demonstração de ignorância foi o ataque à União Soviética, a partir do pressuposto ideológico da inferioridade dos russos, relativamente aos alemães, e a abertura - contrariamente à orientação de seu Estado-Maior - de uma suicida segunda frente.

No caso do presidente Bush e da pequena e dogmática equipe que o cerca, observa-se a mesma profunda ignorância do que realmente está em jogo, e o mesmo fundamentalismo primário que conduz as 'forças do bem' a se oporem às 'do mal', num confronto que teologicamente teria de terminar com a vitória do 'bem'.

Não poderá escapar a ninguém o fato de que a preocupação com a suposta posse, pelo Iraque, de armas de destruição maciça (até agora desmentida pelos inspetores da ONU) e a decorrente necessidade de as destruir, constitui um mero pretexto, freqüentemente substituído por outras alegações, como a obrigação internacional de se pôr um termo a governos tirânicos, ou a de se democratizar o Iraque e o Oriente Médio.

Tampouco se trata apenas, ou mesmo predominantemente, do propósito de controlar o petróleo iraquiano.  O que está em jogo, sobretudo, é a deliberação do governo Bush de impor, mundialmente, o unilateral monitoramento dos EUA, porque estes são uma incontrastável superpotência, e, moralmente, o centro do 'bem'.

O verdadeiro resultado da guerra se reveste de aspectos catastróficos.  

Além dos sofrimentos impostos a um país pobre como o Iraque, o pós-guerra se caracterizará, ademais, pelo dilaceramento interno entre curdos, sunitas e xiitas, pela violenta confrontação do mundo islâmico com os EUA e pela incontrolável ampliação do terrorismo internacional.

Uma segunda questão se refere ao projeto de democratização do Iraque. Democratizar uma sociedade islâmica requer, previamente, a conversão do islamismo de um sistema globalizante em uma religião subjetiva.  Isso foi feito na Turquia por Mustafá Kemal (1881-1938) e é isso que está tentando, contra os conservadores que controlam o poder militar, o ilustre presidente Khatami, do Irã.  É isso que poderá ser intentado, desde dentro, em outros países islâmicos, por muçulmanos moderados.

Pensar que o dirigente de uma ocupação militar americana do Iraque possa nele instituir um regime democrático que não seja uma simples farsa, durante o período de ocupação, revela a extensão da falta de conhecimento do que está em jogo por parte do governo Bush.

Um terceiro aspecto a ser considerado, na verdade o mais grave de todos, é o que se refere à violação da ordem internacional. Na prática, o mundo vinha sendo regulado por um consenso entre a superpotência, de um lado, e, do outro, as grandes potências da Europa Ocidental e o Japão.  Nesse quadro, uma emergente China e uma Rússia em processo de recuperação, sob Vladimir Putin, passaram também a ter voz.

O unilateralismo de Bush, impondo o superpoder americano e sua presumida identificação com o 'bem' sobre qualquer outra consideração, rompeu, de uma forma que poderá ser irremediável, a ordem internacional e o equilíbrio mundial que esta proporcionava.

Ante esse gravíssimo fato, as Nações Unidas, longe de perderem relevância, se apresentam, mais do que nunca, como o único centro de legitimidade internacional. Quem perdeu legitimidade foi a superpotência, sob o desastrado governo Bush.

Que conseqüências decorrem do fato de o governo Bush ter enveredado pelo caminho da ilegitimidade?

A questão comporta uma amplitude de dimensões que estes breves comentários não poderiam abordar. No fundamental, a matéria apresenta dois principais aspectos, de longo e de curto prazos.  Como nos mostra a história, todos os impérios são, a longo prazo, passageiros.

O Império Romano, o mais bem construído império da história, entrou em longa decadência depois de Marco Aurélio, e terminou desaparecendo. O 'império americano', incomparavelmente superior do ponto de vista tecnológico, mas incomparavelmente inferior em muitos outros aspectos, se defrontará, em meados deste século, com a emergência de centros alternativos de poder, como China e Rússia.

Se nas próximas décadas, a partir do 'núcleo duro' da Europa - França e Alemanha - se configurar um centro ocidental de poder independente, mas não antagônico, relativamente aos EUA - quadro no qual a América Latina poderá jogar um papel relevante - o mundo provavelmente ostentará, em meados deste século, um aspecto menos ameaçador que o resultante de uma futura, individida, confrontação sino-russo-americana.

A curto e médio prazos, as Nações Unidas, sob a liderança de países como França e Alemanha, com o apoio de China e Rússia, podem (e devem) administrar o remanescente de ordem mundial e de legalidade internacional.

Podem convocar o povo americano, com seus valores profundamente democráticos e o excepcional compromisso com tais valores por parte de tantos americanos, a repudiar o aventureirismo de Bush, compelindo esse próprio governo ou, mais provavelmente, seu sucessor, a retomar o caminho da legitimidade internacional.

Não é verdade que o 'bem', entendido fundamentalisticamente, sempre vença; mas é verdade que, a mais curto ou mais longo prazos, o mundo só é administrável dentro de critérios de satisfatória racionalidade e eqüidade.

 

Hélio Jaguaribe es un destacado sociólogo brasileño y ex-secretario nacional de ciencia y tecnología. Publicada originalmente en 'O Globo' (20 marzo 2003)

 

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