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LA PRACTICA DEL
GOBIERNO DEL PT NO TIENE NADA QUE VER SON SU HISTORIA
Entrevista a Octavio Ianni
Considerado um dos pais da moderna sociologia brasileira, o sociólogo e
professor emérito da Unicamp Octavio Ianni mantém-se fiel a uma de suas
principais características como intelectual: a franqueza. Mesmo quando ser
franco signifique fazer duras críticas à esquerda, ala em que, como socialista
convicto, sempre transitou e defendeu.
Numa análise contundente e até certo ponto apaixonada, Ianni não poupa nem
mesmo o governo que ajudou a eleger em outubro passado, que, em sua opinião,
estaria promovendo a “satanização” de algumas categorias, como a dos
aposentados, funcionários públicos e professores universitários para
conseguir a aprovação das reformas que propõe, sobretudo a da Previdência.
Como observador atento do globalismo e de seus reflexos no terceiro mundo,
Ianni diz que o cenário verificado no Brasil é uma amostra da crise que a
esquerda vive em escala mundial. “A menos que se faça uma análise objetiva
sobre as forças sociais que estão atuando em escala nacional e transnacional,
será impossível formular uma nova política de esquerda” afirma. “Caso
contrário será uma política de nostalgia, sobre idéias que eram muito
bonitas e válidas no passado, mas que já dançaram”. Leia a seguir os
principais trechos da entrevista que o sociólogo concedeu ao Jornal da
Unicamp.a
Jornal da Unicamp – A esquerda brasileira está
inquieta e parte dela se sente desconfortável com o momento político, como se
estivesse sendo inculpada das desigualdades sociais. Como o senhor analisa esse
quadro?
Octavio Ianni—Não há dúvida de que a sociedade brasileira está
atravessada por injustiças sociais. E não há dúvida de que esse quadro de
desigualdades deve ser superado aos poucos ou rapidamente. Há que reconhecer,
especialmente se se trata de um presidente da República, essa realidade e lidar
com ela de maneira objetiva. Em absoluto não cabe ao presidente satanizar
categorias sociais sem enfrentar a preliminar de como encaminhar uma solução
objetiva para os problemas da sociedade. Concretamente, a preliminar de todas as
preliminares é como criar emprego para a grande maioria da população que se
encontra subempregada ou simplesmente desempregada. É inegável que algumas
corporações dispõem de vantagens escandalosas. Mas é importante reconhecer
que os professores do sistema público de ensino de primeiro, segundo e terceiro
graus têm sido gravemente prejudicados pelas políticas governamentais desde a
ditadura militar, continuando com os governos civis e com o governo atual, que
se entregou gostosamente ao modelo neoliberal. Portanto, quando o presidente está
dizendo o que disse, ele está simplesmente servindo ou recitando uma diretriz
do consenso de Washington. E não está em absoluto revelando uma visão de
estadista sobre os problemas nacionais. Aliás, ele não pode ser um estadista
porque o governo atual não dispõe de um projeto nacional. Ao contrário, esse
governo instalou-se para resolver topicamente, ao acaso das emergências, os
problemas que vão surgindo.
JU – O que o senhor quer dizer com “satanizar”?
Ianni—Acho que tem de ser passada para o público uma visão de conjunto para
não ficar nessa artimanha dos argumentos governamentais. Um governo que vem a
partir de movimentos sociais está se dedicando muito apressadamente a satanizar
a atividade intelectual na universidade pública. Portanto está contribuindo
para favorecer a privatização e o economicismo no primeiro, segundo e terceiro
graus, que é um item do ideário de Washington, ou mais concretamente uma exigência
do Banco Mundial.
JU – Em sua opinião, quais seriam as conseqüências
dessa postura para o ensino superior público?
Ianni—Os governos militares e os governos civis estão totalmente atrelados às
diretrizes do Banco Mundial, que desde os anos 60 e 70 começou a estabelecer
favores financeiros e tecnológicos mas, simultaneamente, passou a impor exigências.
É o Banco Mundial que estabeleceu as exigências que estão sendo implementadas
no ensino público, como o economicismo e a pesquisa e desenvolvimento.
Desenvolvimento do quê? Da nação, do povo? Não, é do mercado, das corporações,
da economia capitalista. O que os governos militares iniciaram os governos civis
deram continuidade e este governo, para decepção de grande parte do eleitorado
que votou no PT e no Lula, está jogando a última pá de cal no projeto
nacional e no estado de bem-estar social que se havia criado nas décadas
anteriores à ditadura militar.
JU – Mas o que o governo diz é justamente o oposto:
que tem um projeto nacional que outros nunca ousaram ter.
Ianni – Todos estamos vendo que os americanos estão jogando com a hipótese
de que o Brasil é o seu aliado preferencial na América do Sul, e com isso
ganhando a cumplicidade do governo brasileiro e das elites brasileiras, no
sentido de fazer o jogo da Alca, com a hipótese de que o Brasil poderia obter
algumas vantagens em detrimento das outras nações. A rigor, o que os
americanos propõe com a Alça na verdade é uma redefinição da geopolítica
norte-americana na América Latina, e portanto um realinhamento das nações
latino-americanas com a cumplicidade das elites brasileiras. Há tempos que há
uma cumplicidade das elites militares, empresariais e alguns setores
intelectuais com esse jogo malicioso do governo americano, que faz de conta que
o Brasil é o aliado preferencial na América Latina.
JU – Em sua opinião, o que teria levado o governo a
adotar uma postura inversa do que vinha pregando enquanto corrente ideológica?
Ianni—Acho que isso é comum a vários partidos no Brasil. Eles não têm análise
do que está realmente acontecendo no país. Na minha interpretação, desde
1964, com a ditadura militar, e depois com os governos civis, está sendo
desmontado um projeto nacional que era vigoroso. Embora não fosse o projeto dos
meus sonhos, porque era um projeto de capitalismo nacional. Os militares, em função
do jogo americano da Guerra Fria, e depois os governos civis em função das
imposições do FMI, do Banco Mundial e da Organização Mundial do Comércio,
trabalharam ativamente o Consenso de Washington no sentido de desmontar o
projeto nacional. Pouco a pouco o Brasil se transformou numa província do
globalismo. Nos séculos 16, 17 e 18, o Brasil era uma província do
mercantilismo. Agora, no século 21, passou a ser uma província do globalismo.
E o presidente pensa que é presidente de um estado nação. Na verdade é o
administrador de uma província do globalismo. Mas ele não tem essa análise.
Eles estão jogando com a hipótese de que, se o Brasil desmontar o seu projeto
nacional entrará no primeiro mundo. Isso é totalmente enganoso. O exemplo do
que ocorreu na Argentina, que fez tudo isso um pouco antes do Brasil, é
suficientemente claro. É um desastre.
JU – A que o senhor atribui essa súbita atração
pelo globalismo?
Ianni—Vou dar uma resposta que não é acadêmica. O sensualismo do
poder é irresistível. O fascínio do poder e, claro, a ilusão de que vai
governar um estado nação, induz os membros do governo a crer que estão
realizando uma tarefa meritória. Na verdade estão contribuindo para que o país
se mantenha nesse estado, podendo até piorar. Aliás, as corporações
transnacionais, não só norte-americanas, mas também asiáticas e européias,
escolheram o Brasil como base principal de suas operações na América do Sul.
E esta é uma escolha à revelia do governo e do povo. E uma escolha que decorre
da força que estas corporações têm no cenário mundial.
JU – Até que ponto isso representa uma ameaça à
soberania nacional?
Ianni – A soberania nacional acabou. Antes, a soberania nacional era
problemática. Hoje, é uma figura abstrata. Qual a imagem mais evidente do
presidente, seja do passado (FHC) ou deste (Lula)? São fotografias em salas de
visita em várias partes do mundo. Isso cria na opinião pública uma ilusão de
que existe uma nação. Na verdade eles atendem os interesses das corporações
transnacionais, das organizações multilaterais e da geopolítica do governo
norte-americano no mundo.
JU – O senhor acha que existe o risco de a sociedade
cair numa grande decepção?
Ianni—Já caiu. Mas o problema é que a sociedade está tendo condições
muito limitadas de manifestação porque a grande mídia está orquestrada com o
neoliberalismo. A grande mídia é diversionista. Está havendo um processo de
popularização da imagem do Lula. A discussão sobre a Previdência é
conduzida satanizando os aposentados. De repente, as pessoas que estão
aposentadas nos diferentes setores da sociedade são consideradas como peso
morto. Isso é uma loucura, uma barbárie. Governantes dedicados a satanizar uma
categoria social porque já cumpriu suas tarefas. É o reino da barbárie. Essa
atitude da mídia cria um estado de incerteza e de medo.
JU – Há riscos sociais nesse processo?
Ianni—A população brasileira tem sido frustrada continuamente por reversões
causados pelos jogos do poder que são um desastre para a população. Em 1945
havia um processo de democratização que implicava numa reconstrução do país
depois da ditadura do Estado Novo. Esse processo foi frustrado por um golpe de
estado. Em 1964, quando o país estava numa tremenda ascensão democrática, com
conquistas sociais notáveis nos governos de Juscelino Kubitscheck e João
Goulart, as elites militares associadas com o imperialismo deram o golpe de
estado. Depois, com a volta dos governos civis, na chamada Nova República, há
também uma sucessão de frustrações. E a maior de todas é esta, porque o
atual governo nasceu das lutas contra a ditadura militar e as injustiças
sociais. Então essa conjuntura é altamente frustrante, com características
diferentes, mas semelhantes ao que ocorreu durante o golpe de 64 e o golpe de
45.
JU – Como o senhor analisa o discurso do presidente,
quando ele diz, por exemplo, que tem “quatro anos para provar que um torneiro
mecânico pode governar esse país com muito mais sabedoria do que ele já foi
governado”?
Ianni – Ele tem muitos motivos para fazer essa afirmação porque ele também
foi satanizado devido à sua trajetória política. Mas ele foi satanizado por
ser um símbolo das classes subalternas. É importante lembrar que o PT e a
liderança do Lula nasceram da luta contra a ditadura militar e como uma
reivindicação das classes subalternas. Na medida em que se desenvolveu o
processo político, ele foi se ajustando, negociando, acomodando. Não há dúvida
de que qualquer liderança política precisa negociar. Mas o estado de espírito
de muitos que votaram no Lula é de uma profunda decepção, porque nesse
percurso o partido e o próprio Lula largaram na estrada muitos compromissos. O
comprometimento crescente do governo com o neoliberalismo significa o abandono
de qualquer compromisso social, salvo na retórica. Fala-se no Fome Zero, mas
isso é uma retórica vazia, porque o problema do país não é dar um prato de
comida para o faminto, e sim dar emprego para as pessoas não perderam a sua
dignidade. Para que um governante saiba o que é a dignidade dos humilhados e
ofendidos, dos desempregados, daqueles que vão receber um prato de comida, é
preciso ter uma visão de conjunto que implica em ter um sentido de nação, que
não está se revelando no governo atual.
JU – Mas a imagem do presidente, principalmente no
exterior, é muito positiva.
Ianni—Essa imagem altamente colorida e sonora tem a ver com a orquestração
do neoliberalismo. As corporações da mídia são transnacionais. Por outro
lado, há setores da opinião pública mundial que não estão bem-informados
sobre o que realmente está acontecendo. Estive na Argentina recentemente e pude
ver isso. Eles ainda estão galvanizados pela imagem que se criou no passado
sobre o PT e o Lula. Eles ainda não tomaram conhecimento de que a prática
desse governo não tem nada a ver com a sua história. Estão apegados a uma
imagem passada, que já ficou anacrônica.
JU – O senhor acredita que essa lua-de-mel continuará
por muito tempo?
Ianni—Acho que vai durar pouco. Aliás, o discurso que o Lula fez no Rio
Grande do Sul (Pelotas), foi um discurso de alguém que já está assustado com
o terremoto no qual está metido. Como já tive oportunidade de ouvi-lo em
muitas situações ao vivo nos tempos do ABC, percebi que esse discurso feito no
Sul revelava não só aflição, mas também alguns indícios de desespero. E a
reação é péssima, porque satanizar essa ou aquela categoria social, culpar
aqueles que levantam objeções e tentar desmoralizar aqueles que fazem alguma
reflexão crítica, é o pior caminho. O Genoíno (José Genoíno, presidente do
PT) está equivocado quando diz que as críticas que a esquerda faz ao governo
atual são o mesmo que jogar água no moinho da direita. Essa declaração é
maldosa, porque na verdade esse governo já foi para a direita. Esse governo não
é mais um governo de esquerda. Foi uma promessa da esquerda, mas não é mais
de esquerda. Uma promessa que não se cumpriu.
JU – Como a esquerda brasileira vai elaborar essa
nova situação?
Ianni—A esquerda está demorando para fazer uma análise objetiva sobre o que
aconteceu no mundo. Hoje o capitalismo entrou em um novo ciclo de expansão em
escala mundial. As nações estão transformadas em províncias do globalismo.
Desde que se faça uma análise objetiva sobre as forças sociais que estão
atuando em escala nacional e transnacional será possível formular uma nova política
de esquerda. Caso contrário, será uma política de nostalgia, sobre idéias
que eram muito bonitas e válidas no passado, mas que já dançaram. O grande
problema é como caminhar para um diagnóstico objetivo sobre a realidade
contemporânea e como desenvolver propostas. As classes sociais dominantes no
mundo estão altamente organizadas. A Conferência de Davos, o G7, a OCDE, O
FMI, o Banco Mundial, são expressões de que as classes dominantes estão
orquestradas. E as classes subalternas estão demorando a entender que esse
quadro é novo.
Título de D3E; entrevista por C.
Levy, reproducido del Jornal da Unicamp No 220, 10 julio 2003.